Sobre soros e amores

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Eu me apaixonei. E olha que eu não do tipo que se apaixonada facilmente. Mas quando nossos olhos se cruzaram meu coração bateu mais acelerado e minha respiração parou por segundos que pareceram mágicos. Pela minha coluna um frio leve e rápido subia, na minha barriga um vazio aleatório que começou a girar sem direção, assim meio bobo mesmo, igual às borboletas, sabe? Não! Não eram borboletas. Eu só tive tempo de procurar o lixo mais próximo. Seria bom se tivesse dado tempo de chegar até ele. Mas não deu. E eu sentia uma convulsão forte no meu estômago e tudo subia violentamente. Até se espalhar pelo chão frio. Vomitei o copo de água que eu tinha tomado há pouco e um pouco bile.

Dentre todos os lugares em que eu penso em encontrar a minha alma gêmea, o hospital, com certeza não é um deles. Mas lá estava eu. Sem maquiagem, sem salto e vomitando pelo chão da sala de medicação. Agora o que eu faço? Volto pela minha cadeira como se nada tivesse acontecido? Peço desculpas a ele e digo que tudo foi culpa de alguma coisa do mal que eu devo ter comido no dia anterior? Falo que é uma doença grave em fase terminal e que preciso passar meu últimos dias ao lado dele para ter chances de sobrevivência. Tudo estava confuso até eu olhar para o lado e ver a senhora na cadeira rolante no meio da sala rindo. Ela era uma senhorinha de 105 anos! Eu achei uma graça quando ela chegou e as enfermeiras começaram a conversar com ela. Agora, aquela senhora de 105 anos, meiguinha e já meio gagá pela idade, olhava para o meu mocinho e me imitava, fingindo vômito, e tornava a rir. Eu olhei a porta e pensei em empurrar a cadeira rolante pela escada. Eu sei! É feio pensar isso, mas foi verdade, eu pensei. Foi o momento. Acontece.

A enfermeira logo veio me ajudar, a moça da limpeza já cuidou do chão e voltei para a minha cadeira, sem olhar para frente e sem olhar para a velhinha, que continuava a me imitar. Tudo o que eu queria era sair de lá correndo. Pedi licença para ir ao banheiro, a enfermeira percebendo o meu desconforto deixou. E eu sai correndo pelo hospital. Coloquei o saquinho do soro dentro da bolsa para ninguém notar. Entrei no meu carro e dirigi para casa, sem pensar, sem parar. Sã e salva em casa e longe da vergonha e da tentação de ser presa por maltrato a idosos. Só falta tirar o soro da veia, que, por sinal, acabou no caminho de casa.

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