A partida

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Ela abriu os olhos e não soube onde estava. Era aquele sentimento de falta de direção que ela tinha sentido tantas e tantas vezes. Ela não sabia onde estava mas sabia que ele deveria estar ao seu lado, na cama larga e fria. Ele não estava.

Agora uma dor partia o seu peito. O lugar onde ela estava já não tinha a menor importância. Sem ele qualquer lugar era lugar nenhum. Ele era o motivo para o seu sorriso nos últimos meses e ela não acreditou que algum dia o sorriso iria embora.

Uma pontada no estômago e ela levantou com pressa para o banheiro. Vomitou. Não que ela tivesse algo no estômago, mas ela vomitou mesmo assim. Talvez ela tenha vomitado o grito da dor da perda que ela conseguia digerir. Era para ela já estar acostumada com essa dor que sentira tantas e tantas vezes. Mas ela simplesmente não conseguia acostumar-se. E todas as vezes ela acreditava que a felicidade seria eterna e apagava da memória as dores e erros do passado, como se não precisasse mais deles para nada daquele momento em diante. Mas ela sempre precisava, precisava lembrar como era preciso fazer para sobreviver quando uma parte do seu coração era arrancado.

Voltou para cama e apertou com força o travesseiro ainda com o perfume dele. O estômago apertou novamente, mas dessa vez ela engoliu fundo a dor e deixou uma lágrima escorrer pelo rosto borrando a maquiagem já estragada. Para ela, algumas mulheres nasceram para serem amadas, outras para serem tocadas, e as duas coisas raramente se misturavam.

Ela adormeceu entre lágrimas e quando acordou tudo aquilo pouco importava. A realidade ainda existia, mas ela não queria mais aquela realidade para si. Tomou um banho para arrancar o gosto das lágrimas do seu rosto e os toques dele do seu corpo. Com o lápis desenhou um contorno de sorriso nos olhos inchados e com o batom preparou os lábios para receber outros lábios. A futilidade deve ser tratada com futilidade, pensou. Saiu do quarto confiante em busca da felicidade do amor, mesmo saber onde ele estaria, apenas sabendo que ele não estava ali, naquele quarto com a futilidade da sua dor.

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