À flor da pele

Tempo de leitura: 7 minutos

Tenho o orgulho de publicar hoje o texto de uma escritora amiga com a qual tive o prazer de estudar roteiro em Hollywood! Nossos meses de convivência me deram a oportunidade de admira-la cada vez mais como amiga e como escritora.

“Como muitas histórias, esta não aconteceu comigo, mas com dois amigos meus. Beto e Nanda eram completos opostos. Ele era matinal, natureba, atlético e saudável. Ela, noturna, carnívora, sedentária e junkie (com comida, não vão pensar besteira).  Os dois tinham o mesmo círculo de amigos e não demorava e logo se esbarravam por aí. E sempre batiam de frente pelas coisas mais idiotas.

“Eu como carboidratos depois das 18h. Me processe.” – disse Nanda ao narrar para mim mais uma das inúmeras discussões que tinha tido com Beto.

“Eu só quero que ela admita que essa dieta vai acabar com a saúde dela.” – reclamou Beto pra mim, pela quinquagésima vez, com a autoridade que todo natureba carrega no semblante.

Eu só escuto e acho graça. Sempre percebi nos dois uma energia quente que muitos podem chamar de tensão sexual. Mas eles afirmam que não se suportam…

Todas essas discussões só poderiam acabar de um jeito. Pois bem. Num dia comum, como outro qualquer, Nanda estava prestes a sair do trabalho quando recebe uma mensagem de texto avisando:

“Festa de aniversário do Beto no ape dele, às 19h, te vejo lá! Bjs, Bia.”

Eram 18h50 e o escritório de Nanda ficava ridiculamente perto do apartamento de Beto, ao ponto de poder ir caminhando.

“Bem, não vou ser a primeira a chegar” – pensou ela, e decidiu tomar um chopp antes de ir andando para lá.

Chovia torrencialmente e ela resolveu sentar-se no pub mais próximo do prédio do seu escritório. Ao sentar-se, desamarrou os cabelos antes presos num rabo de cavalo apertado. Girou o pescoço para os lados e acenou para o garçom. Na televisão, as notícias do trânsito caótico que começava se formar na cidade.

Enquanto bebericava seu drink, olhou ao seu redor: uma mesa com uns cinco amigos gargalhava alto, em outra mesa, um casal de namorados se beijava entre prováveis juras de amor que poderiam ser eternas… ou não. E ela sozinha! Sempre sozinha!

Nanda respirou fundo. “Não vou pensar nele de novo. Não vou.”

Depois de enrolar uma meia hora, ela pensou que já poderia ir se adiantando e que provavelmente o pessoal já deveria estar chegando para a festa. Ela pediu a conta e foi caminhando encolhida embaixo de seu guarda-chuvas amarelo.

O interfone toca:

“Seu Beto, é dona Nanda” – informa o porteiro.

Beto abre a porta com “Nossa! Você foi a primeira a chegar”.

“Boa noite pra você também.” – retruca Nanda estendo-lhe uma sacola – “Parabéns, seu pentelho!”

“Uma garrafa de vinho!” – exclama Beto sem crer no que via – “Isso porque eu parei de beber faz três anos”.

“Putz, é mesmo! Sem problemas, passa pra cá que eu dou conta disso sozinha”.

“Você é ridícula!” – Beto diz brincando sem ser brincadeira.

“Mas, onde será que está o pessoal?”

“Devem estar chegando. Com essa chuva, o trânsito está horrível.”

“Verdade”

Nanda desarrolha a garrafa e começa a se servir. Beto observa. Ela olha em volta do flat muito bem organizado, limpo, decorado com pequenas estátuas de deuses hindus e pôsteres de yoga. “Típico” ela pensa. Ao olhar mais atentamente ela percebe um mural com várias fotos, algumas dobradas ao meio, evidenciando que alguém fora suprimido das imagens. “Amanda” pensou ela, lembrando da ex-namorada de Beto.

“Tem notícias da Amanda?”

Beto engole em seco “Têm alguns meses que a gente se falou. Ela ainda está viajando”.

“Ainda? Nossa…”

“É… a gente se gosta ainda… mas a vida segue. Ela decidiu partir. Não tinha nada que eu pudesse fazer”.

O constrangimento é evidente.

Nanda toma mais um gole de vinho.

“E o seu ex?” Beto pergunta tentando mudar o clima.

Nanda limpa a garganta “Ele está bem. Parece que vai se casar, sei lá…”

Climão novamente. Eles nunca tinham ficado tanto tempo sozinhos.

Depois de alguns minutos de silêncio, ela entorna a taça de vinho e se serve novamente.

“Você não acha que está bebendo rápido demais?”

“Querido, eu ainda nem comecei!”

“Devagar, garota! Depois eu vou ter de cuidar de você e não tô afim…”

“Relaxa, garoto, eu sei cuidar de mim mesma.”

“Meu Deus! Sempre prepotente!”

“Meu Deus, sempre chato!” – Nanda faz um gesto imitando Beto com galhofa.

“Sabe qual o seu problema, Nanda? Você sempre passa dos limites. Não sabe se controlar…”

“Que foi Beto? Vai ficar me regulando? Eu tô cansada, po! Me deixa relaxar” – Nanda mal termina a frase e já entorna mais uma taça.

“Olha só! Você já está bêbada! Aqui” – ele pega a garrafa – “está vazia”.

“Para de me controlar, Beto. Esse é o seu problema. Você quer controlar tudo. Tudo e todos.”

“E você é uma incoveniente, que afasta todo mundo. Por isso está sempre sozinha!”

“…E não é esse papo de saudável que vai te salvar. Você fica impondo isso pros outros. Essa sua transformação zen porcaria. Tudo besteira.”

“Cala a boca, Nanda…”

“É isso mesmo. Por isso a Amanda foi embora. Porque você é um controlador.”

“Nanda, para…”

“Ela não te suportava! Admita que você fazia da vida dela um inferno! Que ela não suportava ter que sempre que se adaptar a você…”

Beto começa a respirar mais fortemente.

“Você não deixava a garota ser ela mesma. Você sufocava ela. Assim como você sufoca todos ao seu redor.”

“Nanda… é melhor você parar ou…”

“Ou o quê?”

Beto num ato inesperado empurra Nanda até a parede com a mão em seu pescoço. Ele para e vê os olhos de Nanda. Os dois estão com os rostos praticamente colados e sentem respiração um do outro. Ele solta Nanda.

“Meu Deus, Nanda. Me perdoe. Por favor. Me perdoe.” Beto se afasta e senta no sofá, transtornado.

Nanda atordoada, tosse um pouco.

Os dois se recompoem por alguns instantes.

Depois de alguns minutos em silêncio, Nanda caminha até o sofá.

“Não Beto, me desculpe você. Eu te provoquei. Eu não deveria ter dito essas coisas.”

Beto, muito nervoso e tremendo, vira o rosto para que Nanda não veja as lágrimas brotarem.

“Perdão, Beto! Eu me excedi”. Ela gentilmente afaga as costas dele.

Nanda anda até ele e ajoelha a sua frente. Ela segura o rosto dele com as duas mãos e limpa suas lágrimas. Eles se encaram por alguns segundos. Ela suavemente encosta os lábios nos lábios dele. Ele passa as mãos pelas costas de Nanda que senta em cima de Beto. O beijo suave gradativamente aumenta de velocidade.

Ele levanta e Nanda cruza as pernas em torno dele. Ainda num beijo ininterrupto eles seguem para o quarto. A partir daí tudo acontece muito rápido.

Eles se tocam, se amam, se encaram, se beijam. Carícias, ritmo, respiração se desenrolam por momentos de volúpia e uma estranha consideração nunca antes partilhada pelos dois. Gemidos ofegantes pulsam entre movimentos curtos e repetidos. Até que um gemido maior seguido de suor, saliva e lágrimas finaliza aquele rompante inesperado.

E é só nesse momento que o interfone toca anunciando o fim daquele corte no tempo em que os opostos foram um só corpo unidos no desejo de uma trégua de compreensão.”

photoAna Clara Fontana

Sou jornalista, cozinheira amadora, tricolor de coração e apaixonada por filmes. Adoro piadas sem graça, tenho um sarcasmo inconveniente e amo viajar por esse mundão de meu Deus!

 

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